De
tempos em tempos, a indústria da moda se vê às voltas com alguma
polêmica: além das problemáticas que envolvem a magreza excessiva das
modelos, recentemente uma questão racial chamou a atenção. Isso porque a
modelo sudanesa Nykhor Paul desabafou em seu Instagram questionando a
falta de habilidade dos maquiadores para lidar com a pele negra. Leia também: Cuidados com a pele negra: como evitar manchas, acne, foliculite, entre outros Dicas de make para pele negra: olho e boca com cores fortes Manual do cabelo crespo e cacheado: dicas valiosas para cuidar dos fios
“Queridas
pessoas brancas do mundo da moda, por favor, não entendam mal, mas está
na horas de vocês aprenderem de uma vez por todas a lidar com a nossa
pele. Por que eu preciso trazer minha própria maquiagem para um
profissional se uma garota branca não precisa fazer nada disso?”,
questionou a modelo, que tem em seu currículo desfiles campanhas para
grandes marcas como Balenciaga, Tom Taylor e Vivienne Westwood, além de
já ter estampado a capa da revista Elle.
Dicas de maquiagem para negras
A
modelo ressaltou o despreparo e a falta de preocupação dos
profissionais da área para preparar mulheres negras para os desfiles,
apesar de o mercado oferecer uma variedade de produtos. “’É 2015, não
tentem me fazer sentir mal por ter a pele azulada de tão negra (...)
Existem diversas opções de maquiagem para pele negra hoje em dia”,
desabafou.
Apesar da dificuldade de encontrar profissionais que saibam realçar a beleza da pele negra,
Nykhor mostrou que são infinitas as variedades de make – e esbanja
estilo em sua rede social. Inspire-se nas produções da modelo e confira
as dicas.
Reprodução/Instagram Nykhor Paul
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Para
fazer maquiagens coloridas, vale dar mais destaque às cores quentes,
que deixam o rosto mais aceso. Já os tons mais fechados ajudam a
finalizar a produção e dar um toque mais sóbrio.
RIO - Brilhante estrategista militar, inimiga dos governantes
portugueses, idolatrada pelo povo, temida por maridos e cristã por
conveniência. Entre uma batalha e outra no século XVII, no território da
atual Angola, a rainha Ginga se tornou o pesadelo dos lusitanos. Mesmo
usando o comércio de escravos para viabilizar suas manobras políticas,
ela é considerada uma heroína ancestral e inspiradora do Dia da Mulher
Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado hoje, por sua feroz
resistência ao poder europeu em terras africanas. Em Angola, o governo
vem trabalhando para torná-la Patrimônio da Unesco.
Antes
de se consolidar como uma dura opositora do domínio lusitano no
território, Ginga Mbandi cresceu no reino de Ndongo, onde os portugueses
tentavam cooptar os chefes locais seduzindo-os com presentes e ajuda
militar. Logo, porém, a convivência deixou de ser harmoniosa. Os
colonizadores avançaram pelo interior construindo fortes, e os líderes
africanos foram obrigados a pagar tributos com escravos, que, por sua
vez, podiam ser treinados como soldados ou comercializados no exterior.
A guerra, que já parecia inevitável, estourou quando um presídio foi
construído próximo à Cabaça, a moradia do Ngola — o título dado ao
soberano de Ngondo. Centenas de súditos foram presos, inclusive membros
da família real. Derrotado, o Ngola Mbandi deixou a cidade.
Ginga Mbandi. Símbolo da resistência contra colonizadores - Reprodução / Reprodução
—
Quando o novo governador português, João Correia de Souza, assumiu o
poder, encontrou Ndongo destruído, com as feiras de escravos paralisadas
e as autoridades regionais insubmissas — conta Mariana Bracks,
doutoranda em História Social pela USP e autora do livro “Nzinga Mbandi e
as guerras de resistência em Angola” (ed. Mazza). — Os portugueses
precisavam restabelecer o comércio e solicitaram uma embaixadora para
negociar a paz. O Ngola nomeou sua irmã mais velha, Ginga, para este
papel, porque desde pequena ela foi educada por seu pai para assuntos
políticos e militares.
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Ao
receber Ginga, Correia de Souza quis colocá-la em seu devido lugar.
Sentou-se em uma cadeira alta e pôs uma esteira no chão para a
embaixadora. Autor de “O trono da rainha Jinga” (outra grafia para o
nome da africana), da editora Record, Alberto Mussa revela que a
tentativa do português de marcar posição foi malsucedida.
— Ginga pôs uma escrava de quatro e sentou-se sobre ela — conta. —
Desde o início, quando houve uma tentativa dos colonialistas de submeter
o povo à vassalagem, o que transpareceu foi sua postura de negociar de
igual para igual.
Segundo o acordo de paz, Ndongo não pagaria tributos para Portugal.
Ambos os reinos poderiam comercializar, mas como nações soberanas e
independentes. Impressionado com a oratória da embaixadora, Correia de
Souza ofereceu a ela um batizado cristão. Ginga aceitou e ganhou o nome
Ana de Souza — o próprio governador foi seu padrinho. A partir daí, ela
usaria a religião sempre que lhe proporcionasse algum benefício. Nunca
abandonou as crenças de sua etnia, os mbundos.
Nassau. Aliado da soberana contra lusitanos
- Reprodução / Reprodução
Professor
do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco e
autor do livro “Palmares: os escravos contra o poder colonial” (ed.
Terceiro Nome), Rômulo Xavier ressalta que a adoção da nova fé foi
apenas um expediente político usado por Ginga e pela classe alta de
Ndongo. A tática da união entre espada e cruz já havia sido adotada pelo
rei do Congo no fim do século XV, o que resultou no aumento do seu
poderio naquela região.
— A conversão ao cristianismo era apenas superficial e restrita à
elite política da população, que provavelmente adaptou elementos da nova
religião às crenças antigas — explica o historiador. — Ginga pode ter
usado diplomaticamente o cristianismo para fortalecer o tratado de
Correia de Souza. IRMÃO ENVENENADO
Os portugueses, no entanto,
logo ignoraram os termos do acordo. A maior vítima dos ataques a Ndongo
foi Ngola Mbandi, ainda no exílio. Em 1624, o então soberano morreu por
causas misteriosas. Uma das teorias mais aceitas é que ele teria sido
envenenado pela irmã, que também mandou afogar o sobrinho, herdeiro
natural do trono, e se apossou das insígnias reais.
— Não se sabe ao certo quem deu o veneno ao Ngola Mbandi, mas era
comum nos reinos africanos o suicídio ritual de um chefe malsucedido —
avalia Mariana. — Quando Ginga assumiu o poder, o novo governador
português, Fernão de Sousa, achou que ela seria muito útil para retomar o
comércio e expandir o cristianismo na região. Mas, devido à
instabilidade gerada pelas sucessivas guerras, muitas pessoas fugiam de
suas terras e buscavam asilo junto à rainha.
Boa parte da multidão que corria até a soberana era formada por
escravos que haviam recebido treinamento militar e armas de fogo para
atuar na defesa dos presídios portugueses. Dessa forma, Ginga se
fortalecia e os portugueses ficavam desguarnecidos. O exército da nova
Ngola abrangia guerreiros de diversas etnias.
— A rainha se uniu aos grupos nômades jagas, casando-se com o seu
chefe. Em seguida, conquistou o reino de Matamba e, depois, formou uma
coligação com os reinos de Congo, Dembos e Cassanje — enumera Xavier. —
Ginga liderava pessoalmente as suas tropas. Para impor a sua política
aos reinos vizinhos, podia apelar para o seu exército, que contava com
quase 80 mil arqueiros. Com ela, expandiu territorialmente o reino e
aumentou seu fluxo econômico.
Todos os soberanos da África Central respeitavam e temiam a Ngola.
Mesmo com as ordens portuguesas para que outros chefes de Estado lhe
negassem a passagem e a capturassem, ninguém ousou contestar o poderio
de Ginga.
No início da década de 1640, a soberana angariou um aliado europeu.
Sediado em Recife, o holandês Maurício de Nassau precisava de mão de
obra para o cultivo da cana de açúcar. Tropas nacionais, então,
conquistaram o porto negreiro de Luanda, um dos maiores da África.
Ginga viu ali a oportunidade de livrar-se de inimigos históricos.
Criou uma rota comercial entre seu reino e a região invadida pelos
holandeses, trocando escravos resistentes ao seu comando por mercadorias
europeias, principalmente armas de fogo, usadas nas batalhas contra os
portugueses. 50 ‘CONCUBINOS’ NO HARÉM
Especialista em
História da África, Alberto da Costa e Silva destaca como o então
recém-firmado comércio transatlântico com a Holanda expunha a habilidade
política de Ginga.
— Ela se recusava a devolver os escravos que fugiam dos governadores
portugueses, mas capturava escravos para os holandeses — assinala Costa e
Silva, autor de obras como “A manilha e o libambo: a África e a
escravidão, de 1500 a 1700” (ed. Nova Fronteira). — Sabia manipular os
grupos com que lidava. Foi uma craque na arte de conservação do poder.
O angolano José Eduardo Agualusa, colunista do GLOBO e autor do
romance “A rainha Ginga — E de como os africanos inventaram o mundo”
(Foz Editora), lançado em março, pondera que a postura da Ngola combateu
os portugueses, mas nunca o tráfico negreiro:
— O tempo todo ela estabeleceu alianças para defender seus
interesses, e um deles era o tráfico negreiro — ressalta. — Os escravos
eram o produto mais valioso da época. Ninguém defendia o fim da
escravidão. Seria como advogar hoje por um mundo sem exércitos.
Em seu auge, Ginga tinha mais maridos do que alguém poderia contar.
Alguns pesquisadores dizem que havia mais de 50 “concubinos” em seu
harém. Costa e Silva destaca que um rei africano podia ter até mil
mulheres — não se sabe se a mesma regra valeria para uma soberana. Fato é
que a Ngola mandava que eles se vestissem de mulher, enquanto ela
muitas vezes usava roupas masculinas, o que pode ser interpretado como
uma tentativa de demonstrar a sua força.
Já no fim da vida, cansada da luta com os portugueses, apelou para os
capuchinhos italianos instalados em Matamba e reafirmou sua fé cristã.
Aos 74 anos, queria a paz e, com o gesto, garantiu a libertação de sua
irmã, sequestrada pelos inimigos. Morreu em 1663, com mais de 80 anos, e
foi sepultada seguindo os rituais cristãos.
O povo de sua etnia consagrou Ginga como a “rainha imortal”. Mais de
quatro décadas depois de sentar-se sobre uma escrava, conquistando a
mesma altura de um governante português durante uma série de
negociações, ela morreu sem se curvar às exigências do colonizador ou
conhecer o interior de um navio negreiro. A trajetória de Ginga foi
relembrada durante os movimentos de libertação de Angola, que deixou de
ser colônia portuguesa em 1975.
— Ela é um símbolo da resistência angolana, porque conseguiu reunir
vários povos na luta contra o invasor europeu, organizando os
governantes locais e mobilizando soldados entre a população — diz
Mariana Bracks, da USP. — Jamais se entregou e conseguiu garantir pela
guerra e pela diplomacia a sua liberdade. Foi consagrada como heroína
nacional, que reuniu os povos angolanos na resistência frente a
Portugal, e hoje é a principal personalidade do país.
Para Mariana, nem a prática do comércio de escravos obscurece a reputação de Ginga.
— Sua atuação política e militar, se pensada ao longo dos anos,
representou um decréscimo no tráfico na região. Durante muito tempo
Ginga coibiu o pagamento de tributos pelos chefes locais, assaltou as
feiras e as caravanas de escravos, libertando os prisioneiros e tornando
o comércio inseguro.
Xavier, por sua vez, avalia que ainda é difícil compreender o legado da Ngola:
— É um julgamento moral difícil. Ginga, ao mesmo tempo em que lutava
contra os portugueses, era sua concorrente em atividades econômicas na
região. Como líder militar, deveria manter a disciplina de seus
comandados. Como diplomata, ao realizar acordos, precisava ser
dissimulada e desconfiar dos seus permanentes adversários. Eram
estratégias de sobrevivência.
(Gravura de Jean-Baptiste Debret, “Escravas negras de diferentes nações”, em tradução livre)
Dia
25 de julho é data para celebrar o Dia Nacional de Tereza de Benguela e
da Mulher Negra. O nome é, segundo a ex-senadora e autora do texto
Serys Slhessarenko, uma forma de criar um ícone para as mulheres negras
do país. “É preciso criar um símbolo para a mulher negra, tal como
existe o mito Zumbi dos Palmares. As mulheres carecem de heroínas negras
que reforcem o orgulho de sua raça e de sua história”, afirmou Serys ao
site da Câmara dos Deputados.
“Rainha
Tereza”, como ficou conhecida em seu tempo, viveu na década de XVIII no
Vale do Guaporé, no Mato Grosso. Ela liderou o Quilombo de Quariterê
após a morte de seu companheiro, José Piolho, morto por soldados.
Segundo documentos da época, o lugar abrigava mais de 100 pessoas, com
aproximadamente 79 negros e 30 índios. O quilombo resistiu da década de
1730 ao final do século. Tereza foi morta após ser capturada por
soldados em 1770 – alguns dizem que a causa foi suicídio; outros,
execução ou doença.
Sua liderança se
destacou com a criação de uma espécie de Parlamento e de um sistema de
defesa. Ali, era cultivado o algodão, que servia posteriormente para a
produção de tecidos. Havia também plantações de milho, feijão, mandioca,
banana, entre outros.
“Governava
esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa
destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas,
entravam os deputados, sendo o de maior autoridade, tido por
conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco
de Morais. Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a
que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à
risca, sem apelação nem agravo” (Anal de Vila Bela do ano de 1770)
Após
ser capturada em 1770, o documento afirma: “em poucos dias expirou de
pasmo. Morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça
daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo
dos que a vissem”. Alguns quilombolas conseguiram fugir ao ataque e o
reconstruíram – mesmo assim, em 1777 foi novamente atacado pelo
exército, sendo finalmente extinto em 1795.
Injustiças centenárias
Números
do IBGE apontam que ser mulher negra no Brasil significa sofrer com uma
intensa desigualdade, como no campo profissional por exemplo. 71% das
mulheres negras estão em ocupações precárias e informais, contra 54% das
mulheres brancas e 48% dos homens brancos. O salário médio da
trabalhadora negra continua sendo a metade do salário da trabalhadora
branca. Mesmo quando sua escolaridade é similar à escolaridade de uma
mulher branca, a diferença salarial gira em trono de 40% a mais para
esta.
A história da “Rainha” foi
relembrada em 1994 pela escola de samba Unidos da Viradouro no
samba-enredo “Tereza de Benguela, uma rainha negra no Pantanal”.
Fontes da pesquisa
CRUZ, Tereza Almeida. Um
estudo comparado das relações ambientais de mulheres da floresta do
Vale do Guaporé (Brasil) e do Mayombe (Angola) – 1980 – 2010.
2012. 367 f. Tese (Doutorado em História) – Curso de Pós-Graduação em
História, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2012.
FARIAS JÚNIOR, Emmanuel de Almeida. Negros do Guaporé: o sistema escravista e as territorialidades específicas. Revista do Centro de Estudos Rurais – UNICAMP, v.5, nº2, setembro de 2011. Disponível em . Acesso em 25 de julho de 2014.