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Muito mais que moda passageira, os tecidos do Mali carregam uma
rica simbologia, capaz de decifrar a alma de povos ancestrais. Franjas que
chamam chuva, o traço que sinaliza um bom caminho, a flecha que alerta contra
pessoas desonestas... Nesse país, o novelo de significados é infinito, como
conta aqui a fotojornalista Marie Ange Bordas
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Yanoga e sua obra-prima: tecido
tingido com índigo, especialidade do país
Dogon
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- Madame, madame, dê uma olhada, nem que seja só para
admirar!
- Que tal um lindo colar tuaregue legítimo?
- E este belo cobertor de lã Peul! Venha cá,
madame!
O amplo sorriso dos vendedores me persegue em praticamente
todos os lugares que percorro pelo Mali. Ensaio meu melhor olhar desinteressado,
murmuro um non-merci ('não, obrigada') ou abro um sorriso rápido. Mas resistir à
tentação dos onipresentes vendedores não é tarefa fácil. O Mali é conhecido por
ter um dos mais ricos artesanatos da África, das jóias tuare-gues às esculturas
dogon, passando por uma infinidade de tecidos -wax industrializados, sintéticos,
tingidos à mão, artesanais de algodão ou de lã-, produzidos pelas diferentes
etnias que povoam o país, como Bambara, Peul, Malinké, Tuaregue e
Dogon.
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Sidik
Doumbia, em frente ao ateliê Ndomo
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Mas falar de tecidos na África ocidental significa muito mais do que falar de
moda ou artesanato: é um caminho para decifrar costumes locais e compreender um
pouco mais da intrincada história de cada lugar. Na raiz da cultura têxtil
oeste-africana está a tecelagem, técnica dominada pelas antigas civilizações
desde o século 9, bem antes da chegada dos europeus. Quando desembarcaram na
costa do atual Senegal, no século 15, os portugueses ficaram estupefatos ao
perceber que 'os selvagens' não só cultivavam e teciam o algodão, mas também o
tingiam de azul intenso. O azul do índigo logo se tornaria matéria-prima
disputada pelos europeus, assim como o foram as tiras de algodão, tecido
utilizado como moeda de troca até pouco depois da Segunda Guerra Mundial.
Segundo maior produtor de algodão da África (atrás do Egito), o Mali tem uma
tradição têxtil que remonta há mais de mil anos, quando quase todas as mulheres
sabiam fiá-lo e a maioria dos agricultores tecia nas horas vagas. Tecer tem
significados rituais e mitológicos. Para o povo dogon, a linguagem é
indissociável do tecer. O termo sou, por exemplo, significa 'palavra', mas
também a faixa de tecido que sai do tear. Para eles, 'estar nu é estar sem
palavras'.
Os homens
desenham os lindos motivos do
Bogolan
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Homens e mulheres dividem as
tarefas de tecer, tingir e
desenhar
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Os
símbolos do Bogolam
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Céfarin
jala: literalmente, a cintura do corajoso. Simboliza bravura ou
fecundidade
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Dankun: cruzamento de dois
caminhos. Evoca um sacrifício por outras pessoas
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Falifereke: a imagem
representa animais domésticos presos. É um símbolo do
imobilismo |
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Juru sarabali ka sira:
ziguezague, o caminho tomado por quem não quer pagar suas
dívidas |
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Kalabanci ka sira: caminho
feito pelo impostor, aquele que finge ser quem não é |
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Kolon kisèso: a casa das
conchas (ou moedas). É o lugar onde se guarda a fortuna |
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Bunteni ku: a cauda do
escorpião, sempre associada a pessoas desonestas,
traiçoeiras |
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